TEMPO TRÍBIO
Renée Lenk
Definição de um momento cósmico,
anunciado por um brasileiro
à frente de seu tempo.

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SIRIUS ANGELICUS
Gilberto Freyre, em Pernambuco, teve uma educação mais aberta do que a maioria os filhos dos senhores de engenho na virada do século XX.
Freqüentou a escola inglesa no Recife e de lá saiu fluente em duas línguas.
Sempre lidando com atividades artísticas, passava seu tempo desenhando, lendo e escrevendo.
Sua curiosidade e conseqüente acúmulo de informações fez com que fosse fazer seu mestrado em Ciências Sociais em Stanford, nos Estados Unidos.
Seus estudos e tese alinhavaram sua obra maior, Casa Grande e Senzala, base de todos os estudos sobre a sociedade colonial brasileira.
Recorreu, para suas pesquisas, de métodos inusitados até aquela data,e que não são considerados científicos.Recortes de jornais, conversas com todo tipo de pessoas, e até sobre as receitas de culinárias com as Iaiás e seu carinho e cuidados para com os senhorzinhos. Sua perspectiva era a de mostrar o que as pessoas comiam, bebiam, vestiam e sentiam. E não um quadro de estatísticas ou regras estabelecidas onde falta a Vida, falta o Homem e suas vicissitudes.
Gilberto Freyre era, antes de tudo, um artista, um escritor nato. Artista e cientista ao mesmo tempo. Por isso seus métodos de pesquisa não eram ortodoxos e acadêmicos. Para estes, o período a que se dedicavam era o resultado de uma visão fria, mais observável e mais calculável por ser póstuma. Mas sempre se tirou o humano, o espiritual das ciências ditas humanas. Paradoxal não?
A maior parte da História que se conhece, visa estabelecer a supremacia dos vencedores sobre os vencidos.
Até hoje, envergonhada, sentindo que falta o mais importante, o humano, tenta se redimir em apresentar a história da vida privada ou seja, os burgueses na sua intimidade.
Mas, e a massa de seres que fizeram o trabalho pesado e sujo? Onde está a sua vida privada?
Poucos tiveram a coragem de mostrar como viviam os oprimidos. Exemplo? Nas pinturas de Brueghel vê-se os camponeses medievais esfomeados, exaustos e maltratados. Para os artistas seus contemporâneos e até aos posteriores, a vida dos nada privilegiados servia de tema para suas obras.
Dickens, na Inglaterra, mostra a trágica vida dos operários da Revolução Industrial.
O único livro escrito que versa e enaltece os não favorecidos no mundo ocidental é a Bíblia.
Gilberto, mesmo ainda com um ar um pouquinho superior, mostra a vida dos escravos.
Foi considerado não só grande cientista, mas comparado a escritores, especialmente a Marcel Proust, já que estes dois trataram e escreveram magistralmente, sobre o mesmo assunto, o tempo.
Proust o resgata através de uma xícara de chá.
Gilberto através da percepção do Tempo Tríbio. Passado, Presente e Futuro, ocorrendo ao mesmo tempo.
Assim, conseguiu intuir o Brasil do Terceiro Milênio.
Berço da Nova Era por ser habitada por uma população mestiça, com a pele colorida de todos os matizes de bronze.